A Difícil Avaliação da Gestão Pública
Não é fácil julgar a gestão de um Governador ou de um Presidente da República, sem conhecer bem os números da economia e sobretudo as peculiaridades da administração avaliada.
Exemplificando, Juscelino Kubitschek foi acusado por toda a grande imprensa brasileira do seu tempo de ter levado ao caos as finanças do país.
Mas na realidade, a inflação do seu período ficou numa média global de 30% (trinta por cento).
Enquanto isso, o primeiro grande pique inflacionário por que passou o Brasil ocorreu nos anos 80, com João Figueredo, quando atingiu 280%.
Delfim Neto, em depoimento recente na TV Câmara, diz que ao assumir o Ministério do Planejamento, sucedendo a Mário Henrique Simonsen, o Brasil estava quebrado, mas que a responsabilidade decorria dos grandes investimentos do governo anterior, de Ernesto Geisel.
Não pretendo realizar qualquer julgamento, pois governos posteriores, como os de Fernando Collor e Sarney, alcançaram níveis de inflação de 1.500% (um mil e quinhentos por cento) e 2.000% (dois mil por cento), sem que tenham realizado investimentos de maior porte.
Colocaria, assim, uma questão quanto à ortodoxia das políticas antiinflacionárias em países em desenvolvimento, como ocorre atualmente no Brasil.
Os números atuais da macroeconomia, ou seja, da gestão Palocci/Henrique Meirelles, têm recebido apoio da comunidade financeira e de segmentos empresariais, bem como da mídia nacional.
Mas também não são poucos os que criticam a falta de investimento em infraestrutura e políticas sociais, como contrapartida ao pagamento dos juros dos credores e da mudança do perfil da dívida pública.
Na verdade, o desempenho do atual governo no que se refere aos investimentos realizados em áreas tidas como prioritárias tem sido muito aquém das expectativas.
Tome-se, como exemplo, os valores dos investimentos realizados em áreas importantes em 2004, comparados com o que foi investido em 2001:
| ÁREAS | TOTAL PAGO EM 2001
(Gov. FHC) – R$ |
TOTAL PAGO EM 2004
(Gov. Lula) – R$ |
QUEDA |
| Saneamento | 275,5 milhões | 27,2 milhões | - 90% |
| Educação | 1,1 bilhão | 425 milhões | -64% |
| Energia | 85,4 milhões | 36,8 milhões | -56% |
| Habitação | 391,2 milhões | 173,9 milhões | -55% |
| Cultura | 47,7 milhões | 24,6 milhões | -48% |
| Segurança Pública | 817 milhões | 467,1 milhões | -42% |
| Agricultura | 645,2 milhões | 326,8 milhões | -49% |
| Transporte | 3,4 bilhões | 2,2 bilhões | -35% |
| (Fonte: SIAFI – Valores corrigidos pelo IGP-DI – Correio Braziliense, 06/03/2005) | |||
Pode ser perguntado, então, se o julgamento do eleitor pesquisado se baseia na realidade ou simplesmente no enfoque da mídia.
Talvez a resposta certa seja a de que depende do segmento consultado.
O Jornal Valor Econômico de 4 a 6 de março, na coluna subscrita por Maria Cristina Fernandes, trata da frustração da classe média alta com o governo Lula, apresentando os seguintes números da pesquisa CNT-Sensus:
Aprovação
| Faixa Salarial | Jan. 2003 | Fev. 2005 | Diferença |
| De 1 a 5 SM | 84,2 | 65,1 | -19,1 |
| De 5 a 10 SM | 79,7 | 64,5 | -15,2 |
| De 10 a 20 SM | 82,2 | 64,8 | -17,4 |
| Acima de 20 SM | 90,0 | 60,0 | -30,0 |
Desaprovação
| Faixa Salarial | Jan. 2003 | Fev. 2003 | Diferença |
| De 1 a 5 SM | 8,9 | 26,9 | +18,0 |
| De 5 a 10 SM | 10,1 | 31,2 | +21,1 |
| De 10 a 20 SM | 6,7 | 27,8 | +21,1 |
| Acima de 20 SM | 5,0 | 40,0 | +35,0 |
| Fonte: CNT-Sensus – Publicado no Valor Econômico de 4, 5 e 6 de março de 2005 | |||
A jornalista informa que o grau de desencanto maior com Lula concentra-se na faixa de 30 a 40 anos e no Centro-Oeste. Nessa Região, o Presidente perdeu mais apoio do que em qualquer outra parte do país, sua popularidade caiu 35,8%.
Estive recentemente em São Paulo e ouvi de diversos amigos que a classe média paulistana é francamente adversa ao governo Lula. Alguns apostam que na sucessão presidencial de 2006 haverá segundo turno, e outros temem o Garotinho, se o PSDB e o PFL não conseguirem viabilizar um candidato competitivo anti-Lula.
Mas o Presidente Lula não pode ser subestimado, pois tem conseguido a proeza de separar a avaliação dele próprio do julgamento do seu governo, tendo ele situação bem melhor. Até onde manterá essa dissociação é impossível prever.
Publicado na Folha de Pernambuco, em 10/3/2005





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