Desafios e Dilemas para 2005-2006
Dentre os numerosos depoimentos que economistas e autoridades da área econômica prestaram neste final de 2004, a revistas especializadas e jornais, sobre os próximos anos, dois nos impressionaram vivamente: o do professor e deputado federal Delfim Netto e o do embaixador e economista Rubens Ricupero.
Ambos revelam preocupações com os déficits orçamentário e o de comércio exterior dos Estados Unidos, elevadíssimos. E prevêem a inevitabilidade de um ajuste, embora não se possa dizer em que prazo.
Isso levaria a um significativo abalo na economia mundial, pela retração das importações americanas e a elevação dos juros naquele país, o que seria enormemente prejudicial para os países em desenvolvimento, sobretudo China, Coréia do Sul e outros países da Ásia que têm muito capital de suas reservas investido em títulos do governo americano e são grandes exportadores para os Estados Unidos.
Um outro aspecto importante é a advertência de Rubens Ricupero quanto à pouca diversidade da nossa pauta de exportações. E exemplifica: “Basta que a Embraer atrase uma encomenda (de aviões) que isso já se manifesta nos números da balança comercial” (Carta Capital n.º 323, ed. especial, dez./2004).
Recordamos que há alguns anos, participando de seminário realizado no Rio de Janeiro por iniciativa do ex-ministro Reis Veloso, com o apoio do BNDES, o representante dos exportadores, ex-ministro Pratini de Moraes, revelou dados buscando comprovar a tese de que o Brasil somente exportava um único produto fabricado exclusivamente por países do primeiro mundo: aviões. O peso maior da nossa balança de comércio exterior ainda era de produtos primários.
Porém, a colocação mais instigante de Rubens Ricupero é a de que “O único êxito indiscutível da economia brasileira dos últimos anos é o comércio exterior”.
Ele considera que no comércio exterior houve real crescimento; nos outros setores, apenas “êxitos de redução de deficits, de diminuição de erros do passado”.
Essa colocação se harmoniza com o diagnóstico de Delfim Netto, embora menos pessimista. Diz Delfim que a situação do Brasil, hoje, é mais confortável porque estamos (1) reduzindo a relação dívida pública/PIB; (2) também diminuindo a relação dívida externa/exportação, e por fim (3) reduzindo-se a relação amortização mais juros e exportações.
Mas o ponto com o qual Ricupero demonstra maior preocupação diz respeito ao câmbio, por entender que a valorização do real frente ao dólar irá fatalmente levar à queda das exportações por desestímulo aos exportadores e aumento das importações.
Todavia, a cotação do dólar que ele sugere como necessária se afigura muito elevada, R$ 3,20.
De qualquer maneira, é bom levar em conta as suas ponderações.
Acreditamos que têm razão, hoje, como tinham no passado, os que não se satisfazem apenas com os números da macroeconomia, ainda que sejam significativos.
Até porque eles tem uma certa fluidez. A taxa de juros “SELIC” está em alta e o PIB do último trimestre de 2004 deverá ser menor do que os dos dois trimestres anteriores, ainda que o crescimento do PIB anual tenha sido expressivo.
Em 2005, assistiremos a um confronto dentro do Governo, que interessa a todo País: de um lado, a ortodoxia do Banco Central que eleva os juros para conter a expansão econômica e reprimir a inflação, e de outro, os desenvolvimentistas (muitos pertencentes ao próprio PT) que consideram o crescimento econômico inadiável, com investimentos estratégicos sobretudo em face da gestão ineficaz do Governo na área social.
Esse dilema entre a política fiscal e monetária para conter a inflação e a necessidade de políticas e ações visando a expansão da economia, viveu o Governo Fernando Henrique Cardoso por oito anos.
FHC apelou para as privatizações, com resultados modestos em termos de crescimento da economia.
Por sua vez, Lula, também apostando nos investimentos privados, agora apela para as parcerias público-privadas, PPPs, que deverão ser testadas a partir de 2005.
Vamos ver se a estrela pessoal de Lula (não necessariamente a do PT) terá maior sorte e brilho que a de FHC.
Publicado no Diário de Pernambuco, em 4/1/2005





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