Em Defesa da Classe Média

O ano de 2003 foi muito desfavorável para a classe média.

Estima-se que, em comparação a 2002, no primeiro ano do Governo Lula, 3,3 milhões de pessoas com renda familiar mensal entre R$ 1 mil e R$ 5 mil perderam status econômico e social.

Naquela faixa de renda, impropriamente chamada de “alta classe média”, a perda percentual foi de menos 14,6%, maior do que aquela no ano de 1999, Governo FHC, quando houve um decesso de menos 8,9%. No Governo Collor, a perda de status da chamada classe média bateu o recorde, com uma queda de menos 15,8%.

Esses números revelam que a classe média não tem tido, ao longo de muitos governos, a atenção que devia merecer, pela sua importância para estabilidade e o desenvolvimento da sociedade.

No jornal “O Globo”, de sábado dia 27 de novembro, o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais, UNAFISCO, denuncia que, de 1997 até o último trimestre de 2004, a classe média já perdeu 36,9 bilhões de reais, com o congelamento da tabela do imposto de renda, pessoa física.

Revela o UNAFISCO que a inflação acumulada nos últimos oito anos alcançou 89%. Mas, descontados os 17,5% da correção da tabela do IR, pessoa física, a defasagem chega a 60,9%.

O mais grave é que nesses cálculos sempre é levada em conta a renda bruta das pessoas ou das famílias, e não a renda líquida.

Se considerarmos a elevação de tributos como o IPTU, das tarifas de serviços públicos, das anuidades do ensino privado, das perdas decorrentes da última reforma da Previdência Social, veremos que o empobrecimento da classe média é contínuo e crescente.

Este Jornal do Commercio já fez, mediante editorial, um alerta recente sobre as graves conseqüências da proletarização da classe média, e a Revista “Carta Capital” publicou extensa matéria sobre o mesmo assunto.

Neste verão, estive numa banca de jornais, em Olinda, onde no passado fui cliente nos fins de semana. Verifiquei que havia poucos jornais do Rio e de São Paulo à venda. Indaguei a razão e o vendedor disse-me que, há dois anos, ele vendia aos sábados e domingos uma média de 150 exemplares da Folha de São Paulo, “mas que agora (novembro de 2004), a média de venda daquele jornal era de apenas 25 exemplares a cada fim de semana”.

Na matéria da “Carta Capital”, n.º 317/04, dentre outras muitas informações está a seguinte: “A UNICAMP mostra que o achatamento da classe média foi mais intenso na grande São Paulo do que, na média nacional. Em 2003 houve diminuição de 12,8% e de 12,6% no número de pessoas que compunham, respectivamente, a alta classe média e a média classe média. Ao mesmo tempo, cresceu em 27,4% a quantidade de indigentes.”

Os números aqui apresentados demonstram claramente que a insegurança e a violência nas grandes cidades não constituem enigma a ser decifrado. Nem surpreendem a crise de valores e a fragilização de muitas famílias, o que preocupa aos formadores de opinião mais experientes e responsáveis.

Numa sociedade de massas em que a classe média perde status e os pobres e indigentes são cada vez em maior número, polícia, cadeia, retórica e marketing político não vão resolver o nosso futuro.

É certo, pois os cientistas políticos convergem neste sentido, que o conceito de classe não pode ter como referência apenas a renda per capita ou familiar. Outros fatores, sociológicos, culturais e profissionais são levados em conta.
Mas é também indiscutível que a perda de status econômico reduz o contigente da classe respectiva e torna cada vez menor a sua influência social e política.

Publicado no Jornal do Commercio, em 14/12/2004

Compartilhe:
Add to: Del.icoi.us Adicione: StumbleUpon Adicione: Technorati Adicione: Digg Adicione: Yahoo Adicione: Newsvine Adicione: Ma.Gnolia Adicione: Google Adicione: Reddit

Faça um comentário.

Deputado Federal Roberto Magalhães