Honra ao Mérito

O jornalista carioca Rubem Azevedo Lima, em sua coluna no Correio Braziliense da última segunda-feira, dia 18, exalta a ex-ministra Marina Silva pelo seu gesto digno de exoneração, com apoios nacional e internacional à sua gestão, comparando sua saída do governo com a de outros ministros de Lula que, segundo o articulista, o fizeram “sob investigação policial, indiciado ou suspeito de algum ato ilícito”.

Com a ressalva de que houve ministros que deixaram o governo para candidatar-se a cargos eletivos e outras razões livres de suspeitas, presto homenagem à Marina Silva.

Há muito tempo, leio diariamente notícias de suspeitas lançadas sobre políticos e empresários de cometerem ilicitudes contra os cofres públicos e ferirem os interesses da Nação. Em muitos casos, os acusados desfrutam de acesso livre ao Palácio do Planalto e circulam com prestígio nos gabinetes de diferentes escalões. Foi assim nos casos Waldomiro Diniz, Mensalão, Operação Navalha e, no mais recente episódio vexativo, o uso irregular de cartões corporativos.

E por que exalto a ministra? Porque já não me parece haver no seio da sociedade respeito e admiração aos homens públicos que marcaram as suas vidas pela honestidade pessoal e austeridade no trato da coisa pública. Hoje, em um clima muito diferente, tem primazia a fortuna não importando a sua origem, a competência no tráfico de influência e o êxito a qualquer preço. Diante da incredulidade provocada pela escassez dos bons exemplos, vale rememorar conhecidas palavras de Rui Barbosa:

De tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. (Senado Federal, RJ. Obras Completas, Rui Barbosa. v. 41, t. 3, 1914, p. 86)

Chego às vezes a pensar que nem mesmo o insigne jurista baiano, que condenava no início do século passado a leniência com a corrupção, imaginasse que ela seria, na primeira metade do século 20, árvore nascente a contrastar com a floresta de malfeitos e desatinos que se expande hoje encoberta pelas brumas do populismo e do marketing, este não mais restrito aos períodos eleitorais, mas usado diuturnamente pelos governos à custa do erário público.

A repercussão do gesto da ministra, ao deixar a pasta do Meio-Ambiente, revela que os valores do mérito ainda sobrevivem latentes na sociedade brasileira. Isso tanto se manifesta verdadeiro em seu retorno ao Senado, quando lemos declarações e entrevistas cujas palavras são claras, não demonstram ressentimentos e diz coisas profundas ao afirmar que os derrotados de hoje poderão ser os vitoriosos do futuro. E pergunta: Quem estava certo? Os que aprisionaram Nelson Mandela por 28 anos ou ele próprio, que ajudou a libertar sua pátria do apartheid?

Na senadora e ex-ministra Marina Silva exalto, sobretudo, o idealismo.

O Congresso Nacional – Câmara e Senado -, que, em recente pesquisa nacional, teve desempenho aprovado por apenas 0,5% dos brasileiros, tem muitas lições a tirar desse episódio que tanto sensibilizou o País.

Publicado no Diário de Pernambuco, em 25/5/2009

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