O caminho do retrocesso

O artigo O caminho do retrocesso foi publicado no Jornal do Commercio
A análise da perspectiva econômica brasileira, superado o pior momento da crise mundial, não pode ser pautada exclusivamente pelo ponto de vista político eleitoral (ou eleitoreiro), como vem fazendo o governo Lula. Até porque como já reconheceu o próprio presidente, “ninguém é insubstituível”. E mais, os homens são pela sua própria natureza falíveis e sujeitos à ambição sem limites, autossuficiência, egocentrismo e, em certos casos, o narcisismo… A perpetuação de um mesmo homem, partido ou grupo no poder tem efeitos nocivos e pode gerar heranças malditas.
Desde que “autodecretou” a superação da crise financeira internacional, o Palácio do Planalto trata do assunto com uma euforia midiática e, em razão disso, perde gradualmente o contato com a realidade. O que dá a entender é que para o Palácio do Planalto não há mais crise, isso já é parte do passado e ponto final. Entoam essa cantilena à exaustão para que seja absorvida como verdade incontestável.
Essa animação palaciana contrasta com as preocupações de uma parcela da sociedade atenta aos esforços maciços empregados para disfarçar os reais cenários econômicos interno e externo. Há uma forte corrente que alerta para o fato de o País não ter superado tão bem a crise mundial. Em seu artigo “Brasil sai mal da crise” (Folha de S.Paulo, 30/1/2010), o economista e ex-prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, afirma que o País “saiu da crise muito pior do que entrou e, grave, num quadro econômico muito mais competitivo”. Maia argumenta que o déficit público nominal duplicou, prevê alta dos juros e elevação da dívida pública com a transferência de recursos da União aos bancos estatais.
Esse último ponto também nos deixa preocupados, por que esta conta é paga pelos contribuintes. O governo alardeia que constituiu reservas cambiais da ordem de US$ 240 bilhões, em 2009, ao mesmo tempo que esconde que a dívida interna do Brasil ultrapassará R$ 1,6 trilhão, em fevereiro de 2010. É bom ressaltar que, no ano passado, o governo transferiu R$ 100 bilhões para o BNDES e outros R$ 80 bilhões esse ano para empréstimos, transação contabilizada na dívida bruta (pública), que cresce a uma taxa muito maior do que a suportável.
Com a manutenção dos juros básicos em 8,75%, o Brasil é novamente alçado ao incômodo topo do ranking internacional e fica evidente que cairá no colo dos contribuintes a tarefa de arcar com essa taxação salgada. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), a carga tributária fechou 2009 em 35% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o levantamento da entidade, cada cidadão desembolsou, em média, R$ 5,7 mil em tributos em 2009, o que significa dizer que os brasileiros trabalharam quase cinco meses do ano passado para pagar impostos.
Mesmo neste momento de aparente calmaria, o Brasil abdica dos investimentos que, a longo prazo, nos daria a tão almejada competitividade e nos conduziria ao superávit real, levando a um processo de sedimentação de nossa economia.
São necessários responsabilidade e investimentos reais para levar o Brasil a um equilíbrio sustentável de nossas contas. Fernando Henrique Cardoso nos alertou, em novembro passado, com o artigo Para onde vamos? (O Estado de S. Paulo):
“Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o País, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.”
Ao questionamento proposto pelo ex-presidente FHC em seu artigo, ousaria responder: atrelar o caminho da economia a interesses partidários e eleitorais, certamente nos levará ao caminho do retrocesso. Um processo que, aliás, já está em curso. Propostas como a descriminalização das ações dos movimentos sociais e o controle dos meios de comunicação pelo Estado, formuladas pelo PT à candidata Dilma Rousseff, contrárias a letra expressa da nossa Constituição, já revelam a perspectiva de retorno a um estado de direito não democrático, com perfil bolivariano.
Publicado no Jornal do Commercio, em 26/2/2010





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fev 28, 2010 em 11:38
Não deixem o PT ganhar a próxima.