Um continente em chamas?
O título deste artigo reproduz expressão utilizada pela jornalista Eliane Cantanhêde, em artigo na Folha de S. Paulo, referindo-se à América Latina.
Ela trata da recente queda do presidente do Equador, Lucio Gutiérrez, da fragilidade do governo da Bolívia, do governo do Peru “que apenas sobrevive”, da Colômbia que enfrenta a guerrilha das Farc, e as perspectivas da Venezuela de Chávez com sua recém-criada milícia de trinta mil homens.
Poucos dias após Eliane, é a vez do Senador José Sarney expressar as suas preocupações.
O Senador discorre sobre o que chama de “labirinto sem saída da América Latina”, considerando o regime de Chávez, na Venezuela, como uma novidade, “a democracia fardada”, e a compra de um bilhão de dólares de armamentos à Espanha para uma guerra “que só pode ser entre seus compatriotas”, no seu entender.
Também trata da instabilidade de diversos países sul-americanos.
Tudo isto me leva a recordar de um jantar do qual participei como anfitrião, no início de 1998, quando um brilhante político europeu, que já foi primeiro-ministro, e que me surpreendeu dizendo que muito se preocupava com o destino da democracia na América do Sul.
Ousei fazer algumas ponderações, dizendo que no Brasil esse risco não existia, que nossas instituições estavam consolidadas, ao que ele me respondeu: “Estou pensando na Colômbia, Venezuela e Peru, além de outros países vizinhos”.
Hoje, assistindo à desestabilização de tantos governos no Continente e ao “nosso” cansativo MST e outras siglas mais novas, com suas provocações contra as autoridades constituídas e à lei, fico a imaginar a argúcia e inteligência do estadista europeu, cujo nome não revelo porque imagino que só a ele caberia dizer de público o que naquela ocasião afirmou.
Não sei exatamente o que pensa e planeja o Itamaraty, embora se saiba que a política externa já não é mais monopolizada pelo Ministério das Relações Exteriores, no assessoramento ao presidente da República, dada a presença atuante de Marco Aurélio Garcia como assessor do presidente Lula para assuntos internacionais.
Mas, certamente, não foi confortável para o presidente da República receber Condoleezza Rice, secretária de Estado dos Estados Unidos, em momento de tantas incertezas na América do Sul, que ele visivelmente tem a pretensão de liderar.
O desafio que se coloca para o governo brasileiro na atual conjuntura do Continente muito exigirá do Brasil, para que o labirinto de que fala José Sarney não torne ainda maiores as chamas visualizadas por Eliane Cantanhêde.
Dificuldades não apenas decorrentes do quadro já descrito de instabilidade, mas também as criadas pela Argentina, que historicamente recusa o reconhecimento da hegemonia brasileira no Continente. Além disso, tempo, energias e desgastes que serão exigidos do governo, para atuar com equilíbrio no equacionamento de instabilidades, defesa dos valores democráticos e sobretudo evitar envolvimentos de alto risco.
O exemplo do Equador é muito sugestivo, pela forma brusca da deposição do presidente eleito e pelos dados de pesquisa realizada por uma ONG chilena, segundo a qual a “satisfação com a democracia”, naquele país, caiu de 33% para 11% em uma década.
Publicado no Jornal do Comercio, em 29/4/2005





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