Magalhães concede entrevista ao Jornal do Commercio: “Serra cometeu um erro grave ao elogiar Lula”

Entrevista ao Jornal do Commercio 29/8/2010

Ainda se recuperando de uma cirurgia delicada – teve um aneurisma na veia aorta – o deputado federal Roberto Magalhães (DEM) vai, aos poucos, se integrando à campanha das oposições. Não que precisasse, afinal, ele não vai mais disputar nenhum mandato eletivo. Mas promete se empenhar na eleição de Jarbas Vasconcelos (PMDB) e Marco Maciel (DEM). Embora reconheça as dificuldades vividas pelos dois aliados, ele evita fazer críticas à condução da campanha ou aos “traidores”, sobretudo do PSDB. Mas solta o verbo com relação a José Serra, Dilma Rousseff e o presidente Lula. Conhecido pela franqueza, ele diz que o tucano errou feio ao atacar a petista mas poupar o presidente. “Melhor não ser candidato assim”. O ex-governador recebeu a reportagem em seu escritório de advocacia para falar sobre o futuro “sem estresse” que planeja para si a partir de janeiro, quando deixar o Congresso Nacional. Que, aliás, também é duramente atacado pelo corporativismo danoso e por ter deixado de votar a reforma política. Magalhães adverte, por fim, que a Lei da Ficha Limpa vai precisar de revisões porque, embora represente um avanço, está longe de acabar com a corrupção, graças às muitas brechas colocadas no texto para que fosse aprovado.

JORNAL DO COMMERCIO – Que razões o levaram a decidir abandonar a política? E quando essa decisão foi tomada?

ROBERTO MAGALHÃES – Quando anunciei que não ia mais disputar mandato eletivo, me perguntavam as razões e eu dizia que tinha dez razões para parar e nenhuma para continuar. Logo após minha última eleição, em 2006, fiquei muito desmotivado, porque proibiram o outdoor, único meio de comunicação de massa que um candidato de classe média podia custear. Televisão é só para majoritários, os proporcionais ficam só com as migalhas. Eu tinha 30 segundos três vezes por semana. Não é comunicação, é brincadeira. E aquelas placas de dois por dois metros tinham uma regra tão rigorosa que ficou difícil usá-las. Eu fiquei sem saber como chegar ao eleitor e perdi metade dos meus votos. Tive 200 mil em 2002 e cai para 106 mil em 2006. Comecei a perceber que meu ciclo político estava chegando ao fim.

JC – Uma das razões que o desmotivaram a continuar foi a corrupção. O senhor tem sido um duro crítico de alguns métodos dos colegas. Que métodos são esses?

MAGALHÃES – Eu percebi que os votos conquistados à custa de barganhas, dinheiro, nomeações, emendas parlamentares e outros meios estavam crescendo numa proporção muito grande em relação ao voto independente. E eu não iria entrar nesse jogo. Nem acho que valha à pena se gastar tanto dinheiro por um mandato. Até porque, deputado federal não é esse marajá que alguns dizem. E uma coisa é um candidato de classe média receber alguma ajuda para se eleger. Outra é ter a eleição custeada por alguém.

JC – Com a sua saída, o senhor vai deixar seus eleitores órfãos? Eu vi que o senhor está pedindo votos para André de Paula…

MAGALHÃES – Eu estou pedindo votos para os candidatos da nossa coligação. Mas a minha prioridade é para os mais amigos, os mais próximos. Se outros me pedirem, eu farei, mas André foi uma escolha minha, porque ele, desde estudante, sempre esteve nas minhas campanhas. E hoje é um amigo e colega excelente. Estive no comitê de Bruno Rodrigues, filho de um amigo meu há mais de 40 anos (Valério Rodrigues) e também vou ajudá-lo, porque gostaria de vê-lo reeleito. Claro que se outros me pedirem, eu farei. Só que não adianta eu me dirigir aos meus eleitores, porque a maioria votou em mim mas nunca se preocupou que eu soubesse quem são eles. Isso muito me honra.

JC – O senhor foi um dos primeiros a criticar o Legislativo por arquivar projetos só por interesse pessoal. A reforma política foi um deles?

MAGALHÃES – Há uma maioria de brasileiros que não sabe, mas nas últimas duas legislaturas (2002 e 2006) nós tentamos por duas vezes aprovar reformas político-eleitorais, inclusive para combater a corrupção, o abuso do poder econômico e político nas eleições. Perdemos! Mesmo com os principais partidos estando a favor do projeto. Alguns parlamentares discordavam porque o projeto de reforma previa o voto em listas fechadas. Esses votaram contra por convicção, mas eram minoria. Perdemos mesmo para uma maioria de deputados que está muito satisfeita com o atual sistema eleitoral. Minha conclusão é que para fazer uma reforma política efetivamente moralizadora, só com um plebiscito.

JC – Como o senhor está vendo os primeiros progressos da Lei da Ficha Limpa?

MAGALHÃES – Apesar da pressão popular, o Ficha Limpa criou muitas brechas. Basta ver o número de recursos que os supostos candidatos ficha-suja impetraram para escapar à impugnação. E estão conseguindo. O projeto foi um primeiro passo, um avanço, mas não vamos comemorar, porque ainda está longe de acabar com a corrupção. Tem ficha-suja que vai direto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Outros conseguem nos TREs dos seus Estados. E ainda criaram, no projeto Ficha Limpa, um recurso direto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Se não criassem esses recursos todos, o projeto não passava no Congresso. Confiaram demais na Lei. Ela poderia ter sido mais rigorosa, mas não passaria.

JC – O senhor concorda que, na ausência das novas leis que precisavam ser feitas, a única maneira é com o Judiciário assumindo para si a tarefa de legislar?

MAGALHÃES – A judicialização do processo eleitoral acontece porque o Congresso deixou de legislar. Eu não condeno o Judiciário, porque o que ele está fazendo é procurando preencher essas omissões do Legislativo. Está fazendo um esforço em nome da moralização. E os parlamentares ainda reclamam! Por que não votam? É verdade que a Justiça erra às vezes, como errou ao proibir os outdoors. Eu apresentei um projeto na Câmara e Jarbas apresentou no Senado, para restituir os outdoors. Sabe quem foi lá para dentro do Congresso trabalhar contra nós? O prefeito de São Paulo (Gilberto Kassab), que é do meu partido, e que se julga o dono da limpeza das cidades! Só que os outdoors a ser usados nas eleições são os mesmos que já estão lá. Mas a vaidade humana é terrível!

JC – O senhor pretende escrever algo de memórias sobre a sua vivência política?

MAGALHÃES – Sim, eu vou. Eu não tenho pressa porque nessa etapa da vida, a do idoso, eu quero ter menos estresse. Toda a minha vida foi de estresse. Desde a advocacia, que sempre tem alguém do outro lado, oficialmente tentando atrapalhar seu trabalho. Quero mais tranquilidade agora. Mas me vejo no compromisso de escrever. Não será uma biografia, mas um depoimento, com coisas importantes, episódios que participei e histórias de humor que presenciei.

JC – Após a cirurgia, o senhor já fez umas aparições na campanha. Como está vendo o enfoque dado pela coligação de Jarbas à disputa?

MAGALHÃES – No período inicial da campanha eu estava pendente, resolvendo um problema grave, que era um aneurisma na aorta. E devo dizer publicamente isso, porque tinha gente dizendo que eu estava com covardia de aceitar uma vaga na chapa de Jarbas. Me queriam na disputa ao Senado junto com Maciel. Eu escrevi uma carta reservada a Jarbas, com cópia para Maciel, explicando a situação. Eles entenderam e não contaram a ninguém. Agora, quero que saibam, porque tem político que morre, mas não revela que está doente. Petrônio Portela teve um infarto mas não queria que soubessem. Morreu. Tancredo Neves é outro. Não disse o que tinha de verdade, morreu e veja que prejuízo deu ao País! Eu fui a São Paulo, botei um stent na aorta e não digo que estou novo em folha, mas me sinto como se nada tivesse acontecido comigo.

JC – Como o senhor tem visto as dificuldades impostas a Jarbas, como a escassez de recursos e a debandada de tucanos para o palanque governista? Ainda concorda com a candidatura, ou foi sacrifício demais?

MAGALHÃES – O que eu tinha a dizer sobre as candidaturas de Jarbas e Maciel, já disse aos jornais. Falei da coragem deles de se candidatarem, lutando contra as máquinas municipal, estadual e federal. E mais: lutar contra um presidente da República que começou a fazer campanha quase dois anos antes da eleição. Eu levei o DEM a fazer a primeira representação na Justiça contra ele e Dilma, por campanha antecipada. O TSE demorou a decidir, estudou o assunto, que não era fácil, mas resolveu, multou.

JC – Mas me parece que, com a atual legislação frouxa, quem quer que esteja no governo, vai usar a máquina pública na campanha do sucessor.

MAGALHÃES –
Há várias maneiras de usar a máquina. Nos velhos tempos do PSD não se nomeava secretário para ganhar dinheiro, mas para dar prestígio a alguém. E essa pessoa preparava sua candidatura. Hoje, no plano federal, há partidos que exigem ministérios inteiros, de porta fechada. E as estatais são as mais cobiçadas. Houve uma queda de padrão muito grande na política brasileira. Nunca houve santos, mas piorou. Nossa legislação eleitoral se baseia em dois tipos de ilícito: Abuso de poder econômico e político. Será que um presidente pode ir todos os dias à televisão pedir votos para a sua candidata? Dizendo que suas obras são também da sua candidata? Essa é uma reflexão que tem que ser feita após as eleições, porque se continuarmos com esse sistema vamos ter um problema sério no futuro.

JC – O senhor já havia dito que os marqueteiros de José Serra estariam usando estratégias equivocadas, como a de aproximar o tucano da figura de Lula. Erraram como?

MAGALHÃES – Acho justo e digno não denegrir o adversário. Mas diante de um adversário forte como Lula, Serra não poderia dizer que “Lula está acima do bem e do mal”. No dia seguinte, liguei para alguns dirigentes do partido dizendo que esse caminho estava errado. Como o povo vai votar contra alguém que está acima do bem e do mal? Foi um erro grave pensar que poderiam fazer de Dilma uma adversária e se manter neutro em relação a Lula. Ora! Se Lula não errou em nada, então Dilma também não errou em nada, porque segundo o presidente, tudo que ele fez, ela fez. Se você acha que o padrinho é tão forte que não há o que mostrar que ele fez de errado no governo, melhor não ser candidato.

JC – E o governo Eduardo Campos? A situação é a mesma?

MAGALHÃES –
Você está me entrevistando numa hora em que Dilma tem vinte pontos de vantagem sobre Serra, e o governador tem uma vantagem ainda maior sobre Jarbas. Aí, só quem pode bater ou criticar o governo Eduardo é o próprio Jarbas. É o único capacitado para saber o que ele fez ou não fez. Eu só posso dizer que Jarbas foi sempre um grande administrador, um parlamentar de prestígio desde a luta contra a ditadura. Mas não vou improvisar críticas a Eduardo porque não tenho segurança para falar sobre esse assunto.

JC – E sobre Dilma Rousseff, é possível fazer críticas?

MAGALHÃES – Dilma teve contra ela, quando o nome dela surgiu, um obstáculo. O da inexperiência. Mas eu não teria condições hoje de repetir esse tipo de crítica a ela. Porque não existe isso de poste! Eu fui lançado candidato a governador de Pernambuco em 1982 sabendo que iria perder, mas preferi ir às ruas. Aí dizem que ganhei só por causa da vinculação de votos. Sim, mas Franco Montoro (SP) ganhou com o voto vinculado, José Richa (PR) também e Leonel Brizola (RJ) idem. Eu ganhei porque tinha um partido forte, o PDS elegeu todos os governadores do Nordeste pela força do governo da época (João Figueiredo), que fez muita coisa. Mas hoje, vá dizer isso… Só que Figueiredo não foi pro meu palanque nem pro guia eleitoral. Aliás, foi pro meu palanque uma vez, em Santo Amaro. Era um mundo de gente! E terminou com os aplausos e eu segurando a mão dele pra cima, como Dilma segura a de Lula.

JC – As pesquisas mostram que a situação do senador Marco Maciel começou a ficar mais complicada. Como o senhor pretende ajudar?

MAGALHÃES –
Maciel teve minha presença antes mesmo da cirurgia, na festa dos seus 70 anos. Eu estava sem sair de casa, mas fui lá. Tenho participado em diversos atos em que ele está presente. Agora, eu já disse aos amigos do partido: não sei como ajudar. Vocês é que têm que me dizer como. Os federais já me pediram, e eu ajudei André de Paula e Bruno Rodrigues. Há coisas que eu fujo de fazer. Por exemplo, carta aos pernambucanos pedindo votos para um deputado. Não me sinto com autoridade para tanto. Imagine para Marco Maciel? Ele não precisa disso. A maioria dos meus eleitores já vota nele.

Publicado no Jornal do Commercio, por Sérgio Montenegro Filho, em 29/8/2010

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Uma resposta para “Magalhães concede entrevista ao Jornal do Commercio: “Serra cometeu um erro grave ao elogiar Lula””

  1. Gostei muto da entrevista do Dep. Roberto Magalhães.
    Sempre fui sua eleitora e sinto que não se candidate novamente.
    Entendo perfeitamente sua decisão e sua falta de motivação
    Ele já deu uma grande contribuição para Pe. e Brasil, agora é hora
    de deixar que gente nova e honesta como ele,siga adiante, tentando
    barrar a vergonha que se tornou o Senado e a Câmara, tanto federal, como estadual e municpal.
    Fico pasma como o povo brasieiro não se incomoda com a roubalheira
    e falta de vergonha de nossos goverantes e chego a conclusão que cada povo tem o governo que merece

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Deputado Federal Roberto Magalhães