A desilusão com a política (Editorial)

Reprodução da página contendo o editorial A desilusão com a política

Reprodução da página do JC, contendo o editorial "A desilusão com a política"

Alguns políticos sérios anunciam que estão encerrando carreira e isso é tremendamente preocupante. O sinal, com nomes e datas, foi dado em reportagem de Manoel Medeiros Neto, da editoria de Política deste JC, revelando que o sentimento desses parlamentares é a desilusão, com depoimentos que devem levar toda a sociedade a uma profunda reflexão. Um desses depoimentos é do pernambucano Roberto Magalhães, cujo histórico o coloca entre os políticos mais sérios do País. Ele reproduz a insatisfação dos que veem o Congresso subjugado, fragilizado, submetido ao Executivo. De outro lado, o elemento comum a todos os políticos sérios indignados com a força do poder econômico inevitavelmente nos leva a uma só pergunta: se os bons vão embora, o que fica? Essa pergunta tem um sentido agudo de urgência urgentíssima e exige uma revisão profunda para dar um novo norte à política brasileira. Revisão que vem sendo defendida pelos políticos mais sérios através de uma reforma política com amplo debate de todos os segmentos, o que, naturalmente, não interessa a quem faz da conquista de um mandato um instrumento de promoção pessoal e enriquecimento.

Esse clima de desilusão que é revelado por figuras notáveis de nossa política representa uma preocupação a mais para a projeção do Brasil de amanhã. Se hoje, mesmo com políticos acima de qualquer suspeita, à prova de mensalões ou mensalinhos, que levaram e levam para a atividade pública os mesmos princípios que regem sua atividade privada, se mesmo assim temos uma política contaminada, o que podemos esperar se a chamada reserva moral cai fora? Procurar a resposta para essas questões deve ser uma obrigação de todos. Não há como falar em cidadania se recusamos o dever de contribuir para a depuração da atividade política, e isso só pode acontecer se elegemos pessoas com história pessoal de retidão e compromisso com a ética. Aí é onde entra um dos componentes mais graves desse processo de degradação da atividade política: grande parte dos eleitores brasileiros não dá essa contribuição. Por exemplo, um dos problemas centrais dos políticos sérios é o custo das campanhas eleitorais, o que significa dizer que o eleitorado contribui, sim, para encarecer a campanha, na medida em que suas exigências são mais pela forma que pelo conteúdo.

Esse problema é o que está sendo realçado pela discussão do financiamento das campanhas com recursos públicos, um dos aspectos centrais da moralização do processo. Os políticos mais comprometidos com a qualidade da vida pública brasileira defendem essa forma de financiamento, por entenderem que seriam, assim, nivelados todos os candidatos, ficando o diferencial para o conteúdo que cada um possa acrescentar à imagem da TV ou dos santinhos. Na forma atual, em que prevalece o caixa 2, financiamentos espúrios que dão ganho de causa ao poder econômico, os profissionais liberais vocacionados para a política são forçados a aderir aos esquemas viciados, ou fugir deles e correr o risco, permanentemente, de ver encerradas suas carreiras por falta de recursos para a campanha.

Por outro lado, torna-se penoso para um político decente ter que conviver com colegas de parlamento, ou participar de quadros executivos sob suspeita, sabendo que divide espaço e tribuna com fichas-sujas, elementos com graves ações na Justiça, e até mesmo com a inutilidade de sessões que não levam a nada, muitas vezes – como acontece no Senado – destinadas apenas a ocupar o tempo de televisão, sem público, sem senadores para o debate e o questionamento. Um cenário que já levou um dos candidatos a candidato a presidente da República, o deputado Ciro Gomes, a afirmar que nunca mais vai ser deputado federal porque não tem mais paciência para ficar o dia todo conversando coisas sem importância.

Publicado no Jornal do Commercio, em 8/4/2010

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